Mostra “Memória Viva” será apresentada na Universidade de Brasília após passar por Tóquio, São Paulo e Curitiba
Quase 40 anos após o início do movimento migratório que levou milhares de brasileiros ao Japão em busca de trabalho, a comunidade formada no país asiático vivencia um novo momento de sua história. Depois de atingir mais de 310 mil pessoas em 2007, o maior contingente já registrado nesse fluxo humano, o grupo foi impactado pela crise financeira internacional de 2008 e pelo terremoto de Tohoku, em 2011, até se estabilizar em torno de 210 mil residentes, consolidando uma população mais permanente, formada por famílias, estudantes, empreendedores e trabalhadores que mantêm vínculos com os dois países.
É nesse percurso que a exposição "Memória Viva, Brasileiros no Japão" chega a Brasília, poucos meses depois de sua estreia em Tóquio. A abertura para convidados será realizada no dia 24 de agosto, no Espaço da Memória da Universidade de Brasília (MemoUnB), onde a mostra ficará aberta ao público entre os dias 25 e 28 de agosto. A iniciativa reúne documentos históricos, fotografias, jornais, revistas, objetos e outros registros produzidos desde os anos 1980. O acervo retrata a formação da comunidade brasileira, sua contribuição para a sociedade japonesa, seu impacto financeiro no país natal, além dos reflexos desse processo na relação entre Brasil e Japão.
Idealizada por Miguel Kamiunten, representante da Nihon Kaigai Kyokai, do Movimento Brasileiros Emigrados e da Restart Community, a exposição foi organizada em parceria com essas entidades e contou com apoio da Embaixada do Brasil em Tóquio, da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, o Bunkyo, da Associação Central Nipo-Brasileira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade de Brasília (UnB). Segundo o organizador, a proposta surgiu para preservar um patrimônio documental construído pela própria comunidade ao longo de décadas e disponibilizá-lo também ao público brasileiro. "Há pessoas no Brasil que ainda mantêm fortes laços com o Japão, elas fazem parte dessa história. Visamos também dar visibilidade para essa comunidade perante o poder público e a sociedade. Mesmo estando em outro continente, não deixaram de ser brasileiros e nem de contribuir economicamente com o país natal", destaca.
Acervo de documentos históricos
Distribuída em 36 painéis trilíngues, apresentados em português, japonês e inglês, a mostra apresenta um conjunto de materiais produzidos desde os primeiros anos da imigração contemporânea, entre eles um tabloide publicado em 1986, as primeiras edições dos quatro jornais editados em português e voltados aos brasileiros residentes no Japão, além de exemplares de mais de 40 revistas comunitárias, fotografias, reportagens, documentos históricos e registros que abordam acontecimentos marcantes e a consolidação de uma comunidade que deixou de ser predominantemente temporária. Durante a visitação, também será exibido um documentário produzido entre fevereiro e junho deste ano com entrevistas de jornalistas que atuaram ou atuam na mídia comunitária brasileira no Japão. O material permanecerá disponível exclusivamente na exposição até dezembro.
De acordo com Kamiunten, a documentação reunida demonstra que a história da imigração recente foi registrada pelos próprios brasileiros que integraram esse processo, o que confere valor histórico ao acervo e oferece novas possibilidades de pesquisa sobre migração, comunicação e relações internacionais. Ele observa que jornais e revistas comunitários desempenharam papel relevante ao informar, orientar e registrar o cotidiano dos trabalhadores e de suas famílias, formando um conjunto documental que hoje permite compreender transformações sociais, econômicas e culturais ocorridas ao longo de quatro décadas.
A equipe responsável pela pesquisa e organização do conteúdo reúne o professor Harayama Kosuke, da Universidade de Kyoto, o professor Angelo Ishi, da Universidade Musashi, Kojima Shigeru, ex-responsável pelo Museu de Migração Internacional da JICA Yokohama, a doutoranda Chrissy Lika Kojima, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio, a mestranda Larissa Kaori Assahida, da Universidade Musashi, além de Miguel Kamiunten, educador e idealizador da exposição.
A exposição foi inaugurada em junho na Embaixada do Brasil em Tóquio e, posteriormente, passou a integrar um circuito por localidades japonesas com significativa concentração de brasileiros. Durante esse percurso, também recebeu cobertura da imprensa japonesa e reuniu depoimentos de pesquisadores, jornalistas e representantes da comunidade, reforçando o interesse acadêmico e institucional pela preservação desse patrimônio histórico.





