CNJ integra imagens espaciais e inteligência artificial aos processos de produtores rurais em sete estados; tecnologia promete acabar com fraudes e acelerar decisões no campo

O tempo em que um produtor rural podia apresentar documentos superestimados para conseguir recuperação judicial está com os dias contados. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) começa a integrar imagens de satélite e inteligência artificial diretamente aos processos judiciais do setor, permitindo que magistrados verifiquem, em tempo real, se as informações apresentadas nos autos correspondem à realidade das propriedades. O projeto-piloto abrange sete estados — Goiás, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará e Minas Gerais — que concentram cerca de metade de todos os casos em tramitação no país.
O anúncio foi feito pelo conselheiro do CNJ Rodrigo Badaró durante a 8ª Sessão Ordinária de 2026. A ferramenta adotada é a plataforma VMG (Verificação Agrícola, Monitoramento e Conformidade de Grãos), desenvolvida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, que cruza imagens de satélite com histórico de safras, condições climáticas, impactos de estiagem e garantias vinculadas a cada processo. Com um clique, o juiz passa a ter acesso a um retrato fiel da propriedade — não apenas ao que o devedor escolheu apresentar.
A iniciativa está amparada pelo Provimento nº 216/2026 da Corregedoria Nacional de Justiça, que autoriza a substituição de perícias presenciais pela análise remota em determinadas situações. Além de reduzir custos processuais, a medida promete destravar casos que emperram há anos aguardando laudos técnicos.
A mudança, no entanto, eleva significativamente a régua para quem pretende ingressar com o pedido. “Como a verificação será em tempo real, o Poder Judiciário poderá identificar com mais facilidade indícios de fraudes ou situações que indiquem a inviabilidade econômica da atividade, com potencial evolução para a falência”, alerta Eliseu Silveira, advogado especializado em recuperação judicial.
Para Silveira, a tecnologia torna indispensável a presença de uma equipe técnica qualificada já na fase de elaboração do pedido. “Os dados coletados pelo satélite permitirão que os juízes comparem rapidamente o que está no processo com o que existe de fato na propriedade. Engenheiros agrônomos e contadores especializados em recuperação judicial deixam de ser um diferencial e passam a ser uma necessidade”, afirma.
O impacto esperado vai além da eficiência processual. Com informações geoespaciais objetivas em mãos, magistrados e administradores judiciais terão mais condições de distinguir empresas e produtores com real capacidade de soerguimento daqueles que usam o instituto apenas para protelar dívidas. “É uma medida que vai garantir maior segurança jurídica para todos os envolvidos e contribuir para a credibilidade da recuperação judicial. A tecnologia aliada ao monitoramento remoto reduz incertezas para que o instituto cumpra seu real propósito: preservar atividades econômicas viáveis no campo”, diz Silveira.
Após a fase de testes e capacitação dos magistrados nos estados selecionados, o CNJ pretende expandir o modelo para todo o território nacional.
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| Advogado Especialista em Direito Empresarial, Eliseu Silveira |





