Dados da Secretaria de Saúde mostram que 12,83% dos nascimentos no Distrito Federal ocorreram antes das 37 semanas de gestação em 2024; especialistas explicam os desafios do desenvolvimento infantil e a importância do acompanhamento familiar

No Distrito Federal, 4.267 bebês nasceram prematuramente em 2024, o equivalente a 12,83% dos nascimentos registrados naquele ano, segundo dados divulgados pela Secretaria de Saúde do DF. O número representa uma média de quase 12 bebês por dia que chegaram ao mundo antes de completar 37 semanas de gestação. O cenário reforça a importância do Novembro Roxo, campanha de conscientização sobre a prematuridade, que tem como marco o Dia Mundial da Prematuridade, celebrado em 17 de novembro.
Os dados também mostram que a prematuridade permanece como um desafio para a saúde materno-infantil na capital federal. Em 2025, até o levantamento divulgado em novembro daquele ano, o DF já contabilizava 3.405 nascimentos prematuros, correspondentes a 12,6% dos nascidos vivos. Os números, ainda provisórios, reforçam a necessidade de assistência adequada durante a gestação e de acompanhamento especializado após o nascimento.
Considera-se prematuro o bebê que nasce antes de completar 37 semanas de gestação. Dependendo da idade gestacional e das condições clínicas, a criança pode precisar de internação em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI neonatal), suporte respiratório e cuidados específicos com a alimentação. Entretanto, os desafios não terminam necessariamente quando o bebê recebe alta hospitalar.
Para as pediatras Dra. Renata Castro e Dra. Ana Carolina Viegas, o acompanhamento desses bebês precisa considerar o crescimento físico, o desenvolvimento neurológico, a prevenção de infecções e o acolhimento das famílias, que frequentemente enfrentam insegurança durante os primeiros meses de vida.
Por que tantos bebês nascem antes do tempo?
O parto prematuro pode estar associado a diferentes fatores, como gestação múltipla, infecções, hipertensão materna, alterações no colo do útero e complicações obstétricas. Entretanto, nem sempre é possível identificar uma causa específica, e mesmo mulheres que realizam o pré-natal adequadamente podem apresentar um nascimento antecipado.
Segundo a pediatra Renata Castro, a prevenção deve estar associada ao acesso à assistência obstétrica e à identificação precoce dos fatores de risco, sem transformar a prematuridade em motivo de culpa para as mães.
“Precisamos falar sobre prevenção sem responsabilizar as mães. Existem situações em que o parto acontece antes do previsto, mesmo com todos os cuidados durante a gestação. O acesso ao pré-natal, a identificação de fatores de risco e a assistência adequada ao nascimento são fundamentais para oferecer melhores condições ao bebê”, ressalta Renata.
Os cuidados não terminam quando o bebê deixa a maternidade
Para muitas famílias do Distrito Federal, a alta hospitalar representa o encerramento de um período marcado por internações, exames e preocupações. Entretanto, alguns bebês prematuros precisam continuar recebendo acompanhamento especializado para avaliar o ganho de peso, a alimentação, a saúde respiratória e os marcos do desenvolvimento infantil.
“Cada bebê prematuro tem uma trajetória diferente. Alguns precisam de internações prolongadas, enquanto outros apresentam uma evolução mais rápida. O importante é compreender que o nascimento antecipado exige um olhar individualizado, porque órgãos e sistemas ainda podem estar em desenvolvimento. O acompanhamento pediátrico permite identificar necessidades específicas e orientar a família em cada etapa”, explica Renata Castro.
Ana Carolina Viegas destaca que a orientação médica também ajuda a diminuir a insegurança dos responsáveis, especialmente quando o bebê precisou permanecer internado por várias semanas.
“O nascimento prematuro exige um olhar cuidadoso não apenas para o bebê, mas também para a família. Muitas mães e pais passam por momentos de insegurança durante a internação e, mesmo depois da alta, podem sentir medo de não conseguir identificar as necessidades da criança. O acompanhamento pediátrico é essencial para orientar esses cuidados e acompanhar o desenvolvimento de forma segura”, afirma.
Prematuros podem demorar mais para sentar, engatinhar e andar?
Uma das principais dúvidas dos pais está relacionada ao desenvolvimento infantil. Bebês prematuros podem alcançar determinadas habilidades em momentos diferentes daqueles que nasceram a termo, motivo pelo qual os pediatras utilizam a chamada idade corrigida.
O cálculo considera quantas semanas faltaram para completar as 40 semanas de gestação e ajuda a interpretar os marcos do desenvolvimento, especialmente durante os primeiros dois anos de vida. Essa referência evita comparações inadequadas e permite identificar possíveis dificuldades que necessitem de acompanhamento ou intervenção precoce.
“Um bebê que nasceu dois meses antes do previsto não deve ser comparado automaticamente com outro da mesma idade cronológica. A idade corrigida ajuda a interpretar etapas do desenvolvimento, como sustentar a cabeça, sentar e engatinhar. Isso não significa ignorar atrasos, mas acompanhar cada conquista de maneira adequada e identificar precocemente quando é necessário algum estímulo ou intervenção”, esclarece Renata.
Ana Carolina reforça que respeitar o ritmo da criança não significa deixar de investigar possíveis alterações.
“Um bebê que nasceu dois meses antes do previsto não deve ser comparado diretamente a outro que nasceu com 40 semanas. A idade corrigida permite compreender melhor o ritmo de desenvolvimento e evita cobranças desnecessárias. Ao mesmo tempo, precisamos acompanhar cada conquista e identificar precocemente possíveis dificuldades”, ressalta.
Amamentação e vacinação merecem atenção especial
Entre os cuidados recomendados para bebês prematuros estão o incentivo ao aleitamento materno, o acompanhamento nutricional e a prevenção de infecções. Alguns recém-nascidos podem apresentar dificuldades iniciais para sugar e coordenar a alimentação, necessitando de suporte especializado durante a internação e após a alta.
No Distrito Federal, a rede pública disponibiliza vacinação nas unidades básicas de saúde e atendimento especializado no Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie), localizado no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), conforme as indicações clínicas.
A atenção é especialmente importante para prematuros que nasceram muito cedo ou precisaram de suporte respiratório, já que alguns apresentam maior vulnerabilidade a complicações pulmonares.
“Os prematuros podem apresentar maior risco de complicações respiratórias, principalmente aqueles que nasceram muito cedo ou precisaram de suporte pulmonar. Por isso, é importante manter o calendário vacinal atualizado, avaliar as medidas de prevenção indicadas para cada criança e orientar os familiares sobre os sinais de alerta”, destaca Ana Carolina Viegas.
A saúde emocional dos pais também precisa de atenção
A chegada antecipada de um filho pode transformar completamente as expectativas da família. A internação neonatal, a necessidade de aparelhos hospitalares e a preocupação com o desenvolvimento do bebê frequentemente provocam medo, ansiedade e insegurança, sentimentos que podem continuar mesmo depois da alta.
Entre as estratégias de atenção humanizada está o Método Canguru, que valoriza o contato pele a pele, quando clinicamente possível, e a participação dos responsáveis nos cuidados. A aproximação entre pais e bebês contribui para fortalecer o vínculo afetivo e aumentar a confiança da família.
“O nascimento prematuro pode mudar completamente as expectativas da família. Muitos pais chegam em casa inseguros, com medo de segurar, alimentar ou até deixar o bebê dormir. Nosso papel é oferecer informações claras, acompanhar o desenvolvimento e mostrar que, com os cuidados necessários, muitas crianças prematuras conseguem crescer de maneira saudável. A família também precisa se sentir amparada”, explica Renata Castro.
Para Ana Carolina, a prematuridade não deve ser tratada apenas a partir dos riscos, mas também das possibilidades de desenvolvimento e das conquistas de cada criança.
“Muitas famílias saem da maternidade com a sensação de que precisam proteger o bebê de tudo. É compreensível, mas nosso papel também é ajudá-las a ganhar confiança. O prematuro precisa de atenção e acompanhamento, mas também de afeto, estímulos adequados e oportunidades de desenvolvimento. Cuidar da saúde emocional dos pais faz parte desse processo”, orienta.
As especialistas reforçam que a prematuridade não determina, isoladamente, o futuro de uma criança. Com acompanhamento adequado, identificação precoce de possíveis dificuldades e apoio familiar, muitos bebês conseguem crescer e se desenvolver de maneira saudável.
“O Novembro Roxo não deve ser apenas um momento de falar sobre os riscos do nascimento antecipado. É também uma oportunidade de valorizar cada conquista desses bebês, apoiar as famílias e reforçar a importância do cuidado contínuo. O objetivo é oferecer condições para que cada criança desenvolva seu potencial, respeitando suas necessidades e seu próprio tempo”, conclui Ana Carolina Viegas.
Sobre as especialistas
Dra. Renata Castro é médica pediatra com atuação voltada ao acompanhamento integral da saúde infantil, com foco em prevenção, orientação familiar e desenvolvimento saudável. Também produz conteúdo educativo para pais e responsáveis, abordando os cuidados com crianças nas diferentes fases da infância.
Site: https://pediatrarenatacastro.
Dra. Ana Carolina Viegas é médica pediatra, com atuação no acompanhamento da saúde infantil, na orientação às famílias e na promoção do crescimento e do desenvolvimento saudável de crianças.
Fontes dos dados
Secretaria de Saúde do Distrito Federal / Agência Brasília — Novembro Roxo: campanha joga luz sobre a saúde dos bebês prematuros. Dados de 2024: 4.267 nascimentos prematuros, equivalentes a 12,83% dos nascimentos.
Jornal de Brasília — Novembro Roxo reforça a conscientização e a sensibilidade do cuidado neonatal. Dados provisórios de 2025 fornecidos pela Secretaria de Saúde do DF: 3.405 nascimentos prematuros e taxa de 12,6%.
Secretaria de Saúde do Distrito Federal — Saúde alerta para importância da vacinação de bebês prematuros.




