Profissionais podem identificar mudanças de comportamento e sinais de vulnerabilidade e contribuir para o encaminhamento de crianças e adolescentes à rede de proteção

A escola é um dos espaços onde crianças e adolescentes passam boa parte da rotina. Por isso, além da função pedagógica, professores podem ocupar uma posição importante na identificação de situações que afetam o bem-estar e a segurança dos estudantes. Mudanças repentinas de comportamento, dificuldades de interação, queda no rendimento, isolamento ou alterações emocionais podem ser percebidas no cotidiano escolar e, quando observadas com atenção, servir como sinais de que algo precisa ser investigado.
A atuação, entretanto, não significa transformar o professor em psicólogo, assistente social ou responsável por solucionar situações de violência e vulnerabilidade. Seu papel está principalmente na observação, no acolhimento e na comunicação adequada com a equipe escolar e com os serviços que integram a rede de proteção.
Para Juliana Miranda, coordenadora do Serviço Família Acolhedora, a proximidade estabelecida entre professores e estudantes pode fazer da escola um espaço importante para a identificação precoce de situações que exigem atenção. “O professor convive diariamente com a criança e, muitas vezes, percebe mudanças que podem passar despercebidas em outros ambientes. Isso não significa que ele precise diagnosticar o que está acontecendo, mas que pode reconhecer um sinal, acolher aquela criança e acionar os profissionais e serviços responsáveis”, afirma.
A atenção ganha ainda mais importância quando se trata de crianças e adolescentes que vivem situações de vulnerabilidade ou estão inseridos em serviços de acolhimento. Mudanças familiares, afastamento temporário da família de origem, adaptação a uma nova rotina ou experiências anteriores de violência podem repercutir no comportamento e na vida escolar.
Nesses casos, a escola pode contribuir para a construção de um ambiente de segurança e pertencimento. Manter uma rotina, estabelecer relações de confiança e evitar situações de exposição ou estigmatização são atitudes que ajudam a criança a se adaptar e preservar sua trajetória escolar. “Para uma criança que está passando por uma mudança importante na vida familiar, a escola pode representar um dos poucos espaços de continuidade. Por isso, é fundamental que ela seja recebida sem julgamentos e tenha sua história respeitada. O acolhimento precisa acontecer também no cotidiano, nas pequenas relações e na forma como essa criança é tratada”, explica Juliana.
A comunicação entre escola, família e rede de proteção também é fundamental. Quando uma situação de risco é identificada, o encaminhamento deve seguir os protocolos existentes e envolver os profissionais capacitados para avaliar cada caso. A articulação entre educação, assistência social, saúde, Conselho Tutelar e demais integrantes da rede permite que a criança ou o adolescente não fique sozinho diante de uma situação de violação de direitos.
Outro desafio é evitar que crianças em situação de vulnerabilidade sejam marcadas pelo estigma. Para Juliana, a escola precisa ser um espaço capaz de reconhecer as necessidades individuais sem reduzir o estudante à situação que ele vivencia. “Uma criança não pode ser definida pelo acolhimento, pela condição da família ou por uma situação de violência que tenha enfrentado. Ela continua sendo uma criança, com potencialidades, desejos, dificuldades e direito de participar da vida escolar como qualquer outra”, ressalta.
A construção de uma rede de proteção efetiva depende, portanto, de diferentes atores trabalhando de maneira articulada. O professor não ocupa sozinho a linha de frente desse trabalho, mas pode ser um importante elo entre a criança e os serviços que têm a responsabilidade de protegê-la. “Proteger uma criança é uma responsabilidade compartilhada. Quando o professor sabe observar, quando a escola sabe acolher e quando os serviços conseguem trabalhar de forma articulada, aumentamos as possibilidades de identificar uma situação de vulnerabilidade e oferecer a resposta adequada”, conclui Juliana.
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