Quase 40% dos indígenas em territórios da Amazônia vivem sem acesso adequado à água

Análise exclusiva da InfoAmazonia mostra que 27% da população em terras indígenas depende principalmente de rios, lagos e igarapés para obter água, muitos deles contaminados. O acesso a outros serviços de saneamento também é precário: apenas 4,7% dos indígenas contam com esgotamento sanitário adequado e 6,9% têm destinação adequada do lixo na Amazônia Legal.


Um igarapé na região do Lago do Boto, na Terra Indígena (TI) Munduruku, marcou a infância de Ediene Kirixi. Era ali que ela bebia água, pescava e se banhava desde o final dos anos 80. Na segunda metade da década de 90, o garimpo ilegal de ouro nas cabeceiras do Alto Rio Tapajós, no sudoeste do Pará, contaminou os corpos hídricos do entorno da sua aldeia. Em 1997, Ediene, na época com 10 anos, teve que se mudar com a família e se instalou na beira do Tapajós, cujas águas ainda estavam limpas. Até que, a partir de 2018, o avanço da exploração mineral ganhou intensidade na bacia e transformou de vez o que restava do rio cristalino na região.

“Hoje, as nossas crianças já não têm mais a liberdade de tomar a água do rio. A cor do rio é branca, os peixes estão doentes. A água desce com as sujeiras e chega até nós. Isso deixa muitas aldeias sem ter o que beber”, observa Ediene, 39 anos, coordenadora da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn, que representa sete territórios indígenas da bacia do Tapajós.

A degradação dos corpos hídricos por atividades como garimpo e desmatamento, agravada pela ocorrência mais frequente e intensa de eventos climáticos extremos, aumenta os riscos para quem depende dessas águas. Análise da InfoAmazonia, com base em dados do Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que quase 40% da população indígena em terras indígenas na Amazônia Legal não tem acesso adequado à água e, por isso, depende principalmente de rios, lagos e igarapés para obtê-la. O saneamento básico, que deveria garantir o acesso seguro à água e outros serviços essenciais como esgotamento sanitário e destinação adequada do lixo, ainda é precário nessas comunidades.

Na Amazônia Legal, 116 mil moradores de terras indígenas (27,38% do total da população indígena em TIs) estão conectados à rede geral de distribuição, enquanto 145 mil (34,29%) captam água sobretudo de poços, fontes, nascentes ou minas. Essas formas de abastecimento são consideradas oficialmente adequadas e mais seguras por contarem, em geral, com canalização, fornecimento contínuo, quantidade suficiente e garantia de potabilidade.

Entre as demais formas de acesso à água, 114 mil pessoas (27%) dependem principalmente de rios, lagos e igarapés para obter água. Há, ainda, 37 mil indígenas (8,71%) que coletam água da chuva, 5.067 (1,19%) dependem de carro-pipa e 5.924 (1,4%) obtêm o recurso de formas não especificadas nas terras indígenas da Amazônia Legal.

“A população que vive na maior bacia hidrográfica de água doce do mundo sofre de estresse hídrico. A água dos rios não é a mesma de 100 anos atrás. Boa parte é de baixa qualidade, contaminada”, diz Caetano Scannavino, coordenador-geral do Projeto Saúde e Alegria.

Desde 1987, a organização fornece serviços de saúde e saneamento básico para povos indígenas e tradicionais da bacia do Tapajós. Nas terras indígenas da região, apenas 20% dos domicílios contam com poço, fonte, nascente ou mina; 43% estão conectados à rede geral de distribuição de água; e 35% ainda dependem principalmente de rios, lagos e igarapés.

Na Terra Indígena Munduruku, esse percentual é ainda maior: quase 40% dos 9.281 habitantes têm nos corpos hídricos sua principal fonte de água, e as aldeias com acesso a poço, fonte, nascente ou mina, como a Kaba Rewûn, onde Ediene vive, abrangem apenas 2 mil pessoas (22%).

“O garimpo deixou um rastro, derrubando os pés de açaí, buriti, patauá, e falta caça. Com a estiagem de 2023, os igarapés secaram fora do normal e foram acabando com os peixes. As aldeias ficaram sem ter o que comer”, observa Ediene. “Várias sobrevivem da água de igarapés contaminados pelo mercúrio e precisam de poço. A nossa luta agora é cobrar o governo a fazer instalações de água nas aldeias onde ainda não tem”.

Raione Lima, advogada popular da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Itaituba, no Pará, observa que há pontos de abastecimento e saneamento do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Rio Tapajós, mas são insuficientes para atender a grande quantidade de aldeias e as dificuldades logísticas para os indígenas acessarem esses serviços. “Essa infraestrutura de saneamento básico, que deveria ser garantida e efetivada pelo Estado, pelo Ministério da Saúde, não tem chegado para as aldeias indígenas do povo Munduruku”, ela avalia.

Por Kévin Damásio



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