Dia Mundial do TDAH: milhões de brasileiros convivem com o transtorno enquanto estudantes entram na reta final dos vestibulares

Especialistas explicam como ansiedade, desatenção e dificuldades de organização podem comprometer o rendimento escolar, mas destacam que estratégias adequadas permitem alcançar aprovação até nos cursos mais concorridos

Larissa Velasques / Maria Elisa Riccio Alamy

Às vésperas do Dia Mundial do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), celebrado em 13 de julho, o assunto ganha ainda mais relevância em um período decisivo para milhares de estudantes brasileiros. Com a aproximação dos principais vestibulares e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), candidatos intensificam a preparação para as provas enquanto lidam com desafios que vão muito além do conteúdo cobrado.

Estima-se que o TDAH afete entre 5% e 10% da população, o que representa milhões de brasileiros convivendo diariamente com dificuldades relacionadas à concentração, organização, controle do tempo e impulsividade. Embora essas características possam interferir diretamente no desempenho acadêmico, especialistas reforçam que o diagnóstico não determina o sucesso escolar e que o desenvolvimento de estratégias específicas pode transformar completamente a forma de aprender.

As evidências científicas reforçam essa realidade. Uma meta-análise publicada no Journal of Learning Disabilities identificou que estudantes com TDAH apresentam desempenho inferior em leitura, escrita, matemática e rendimento escolar quando comparados à população geral. Já uma revisão publicada no Journal of Attention Disorders, que reuniu 176 estudos de longo prazo, concluiu que pessoas com o transtorno sem tratamento apresentam resultados acadêmicos inferiores em cerca de 75% dos indicadores avaliados.

No Brasil, pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora também observaram que o transtorno afeta principalmente as funções executivas do cérebro, responsáveis pelo planejamento, memória de trabalho, organização e controle da atenção. Na prática, isso significa que muitos estudantes dominam o conteúdo, mas encontram dificuldade para demonstrar esse conhecimento durante avaliações.

A psiquiatra Jessica Martani explica que o impacto do TDAH vai muito além da dificuldade de concentração e frequentemente repercute na saúde emocional dos estudantes.

"É muito comum que adolescentes e adultos com TDAH passem anos acreditando que são desorganizados, preguiçosos ou incapazes, quando, na verdade, apresentam um transtorno do neurodesenvolvimento. Essa percepção costuma favorecer quadros de ansiedade, baixa autoestima e medo constante de errar, especialmente durante períodos de grande cobrança, como a preparação para vestibulares e concursos. Quando existe diagnóstico, tratamento e orientação adequados, o estudante consegue compreender seu funcionamento e desenvolver estratégias muito mais eficientes."

Segundo a especialista, outro erro comum é acreditar que basta aumentar o tempo dedicado aos estudos.

"O cérebro de quem tem TDAH responde melhor à organização, previsibilidade e pausas planejadas do que a longas jornadas de estudo sem interrupção. Além disso, tratar condições associadas, como ansiedade e insônia, também faz parte do processo de melhorar o desempenho acadêmico."

Na rotina dos cursinhos preparatórios, essas adaptações fazem parte da metodologia adotada para muitos estudantes.

O professor de Redação e diretor do Foco Medicina, Júlio Amorim, afirma que compreender como cada aluno aprende é muito mais importante do que aumentar a carga horária de estudos.

"Quem tem TDAH precisa entender que produtividade não é medida pela quantidade de horas sentado diante dos livros. Estudar em blocos menores, com pausas planejadas, permite manter o cérebro ativo e reduz a perda de concentração. A constância ao longo dos meses vale muito mais do que um único dia de estudo intenso."

Além de acompanhar centenas de vestibulandos, Júlio conhece o transtorno na prática.

"Todos os anos acompanhamos alunos com TDAH conquistando vagas em cursos extremamente concorridos. O diferencial não está em estudar mais do que todo mundo, mas em encontrar um método que funcione para a própria realidade. Eu mesmo possuo TDAH e lido com esses desafios diariamente. Quando existe disciplina, organização e estratégia, o diagnóstico deixa de ser um obstáculo e passa a ser apenas uma característica que precisa ser considerada na preparação."

Essa adaptação foi decisiva para a estudante Maria Elisa Riccio Alamy, aprovada em Medicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Ela conta que, durante muito tempo, sabia o conteúdo, mas perdia pontos por distração.

"O TDAH tornou a minha jornada no vestibular, que nunca é algo simples, um caminho de superação diária. Saber muito a matéria, mas acabar errando por pura distração e não conseguir manter o foco nos conteúdos menos interessantes sempre foram os meus maiores obstáculos."

Segundo Maria Elisa, a convivência com um professor que também possui TDAH fez toda a diferença.

"Minha virada de chave definitivamente veio ao seguir os conselhos do Júlio, que também tem TDAH e entende essas dificuldades. Passei a retirar distrações do ambiente, respeitar meu ritmo de aprendizagem e utilizar pausas estratégicas. Minha aprovação em Medicina não representa apenas o quanto estudei, mas o quanto aprendi a compreender meu funcionamento."

A psicóloga Anastácia Barbosa explica que histórias como essa mostram a importância de substituir a autocobrança pelo autoconhecimento.

"O estudante com TDAH não precisa estudar menos nem mais do que os outros. Ele precisa estudar de maneira diferente. Quando compreende como funciona sua atenção, aprende a organizar a rotina e recebe apoio psicológico para lidar com a ansiedade e a frustração, passa a aproveitar muito melhor seu potencial. Isso reduz a culpa e aumenta significativamente a confiança durante a preparação."

Quem também encontrou esse caminho foi a estudante Larissa Velasques, que afirma que aceitar o diagnóstico mudou completamente sua relação com os estudos.

"O primeiro passo, para mim, foi aceitar que eu tenho TDAH. Essa aceitação mudou completamente a forma como eu encaro os estudos e a minha preparação."

Ela também passou a utilizar adaptações previstas para candidatos com deficiência, como tempo adicional durante as provas.

"Durante muito tempo pensei que meu resultado teria menos mérito por fazer a prova em condições diferentes. Depois entendi que essas adaptações existem para que eu seja avaliada pelo meu conhecimento, e não pelas limitações impostas pelo transtorno."

Outra mudança importante foi reorganizar a forma como administrava o próprio tempo.

"Uma característica muito comum no TDAH é a dificuldade em perceber quanto tempo realmente temos disponível. Eu sempre imaginava que conseguiria fazer muito mais tarefas do que cabiam no meu dia. Pedir para outra pessoa montar meu cronograma durante algum tempo me ajudou a desenvolver uma percepção mais realista."

Larissa também percebeu que cuidar da ansiedade foi determinante para melhorar seu rendimento.

"Percebi que não adiantava melhorar minha concentração se eu continuasse convivendo com taquicardia, angústia e sintomas físicos de ansiedade. Tratar as duas condições fez toda a diferença."

Para Anastácia Barbosa, esse relato resume uma mudança importante na forma de enxergar o transtorno.

"O diagnóstico não limita o potencial intelectual de ninguém. O que faz diferença é oferecer condições para que esse estudante consiga demonstrar o conhecimento que possui. Com apoio adequado, estratégias individualizadas e acolhimento, o TDAH deixa de ser um obstáculo intransponível e passa a ser apenas uma característica que precisa ser considerada durante o processo de aprendizagem."

À medida que o Dia Mundial do TDAH reforça a importância da informação e do diagnóstico precoce, especialistas lembram que compreender o funcionamento do cérebro é tão importante quanto dominar o conteúdo das provas. Para milhares de estudantes brasileiros, adaptar a forma de estudar pode ser o passo decisivo entre a frustração e a conquista de uma vaga no ensino superior.


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