Quando a informação está na palma da mão: desafios e caminhos para a Educação Digital

Artigo da coordenadora de tecnologias e transformação digital do Colégio Marista de Brasília, Larissa Victório


Levei um susto quando descobri que minha filha, quando tinha 15 anos, fazia pesquisas sobre praticamente todos os assuntos na lupa das redes sociais e em soluções de Inteligência Artificial (IA). Ela costumava tomar como fato aquilo que ouvia de influenciadores e das sugestões convincentes da IA.

Eu, educadora crítica e formadora em Tecnologias Educacionais, estava vivendo, por meio da minha adolescente, o maior desafio atual das escolas e dos aprendizes: ter toda a informação na palma da mão, seja ela verdadeira ou falsa, completa, incompleta ou fragmentada para caber em lógicas individuais.

Essa situação me mostrou, na prática, aquilo que muitos educadores já estão gritando aos quatro ventos: escolas e educadores precisam estar preparados para estudantes que já chegam com informação pronta, texto pronto e ideias previamente filtradas.

Muitos de nós, entusiastas das novas ferramentas — eu incluída —, ficamos animados diante das novas possibilidades de aprender, ampliar formas de agir e acessar informações por meio das tecnologias. E ressalto que não vejo nisso um problema. Pelo contrário: essas ferramentas potencializam processos de aprendizagem e representam um caminho importante para a inovação social.

O alerta, porém, está em outro lugar: precisamos, mais uma vez, caminhar em direção às habilidades, aos critérios e aos propósitos que farão do uso das novas tecnologias uma parceria verdadeiramente significativa quando pensamos no futuro dentro e fora das escolas.

Nesse cenário, vejo como primeiro passo formar professores que entendam que eles não são mais a única fonte de informação. Pelo contrário: agora assumem papéis ainda mais importantes.

Ser mediador para que os estudantes encontrem diferentes formas de pesquisa, colaboração e ação; ser curador para garantir acesso a informações de referência, fundamentadas na ciência e não no achismo; e ser provocador nas importantes reflexões da comunidade local e global, desviando de vieses, buscando justiça e verdade e considerando diferentes perspectivas.

Esse educador pode usar a IA, por exemplo, para compreender problemas da comunidade a partir de notícias e ampliar a visão dos estudantes ao solicitar perguntas, análises e artigos sobre esses temas. Pode oferecer insumos para expandir o “campo de visão” sobre determinado assunto e até utilizar a IA para analisar possíveis soluções propostas pelos estudantes sob o ponto de vista dos diferentes envolvidos.

Percebo que muitas escolas inseriram tecnologias apenas como substituição, sem transformar a lógica da aula. Saíram do quadro para o slide, do resumo escrito para o resumo digitado, da apostila para o repositório digital.

Sabemos quais habilidades precisamos desenvolver em nossos estudantes como: criatividade, colaboração, criticidade, empatia e tantas outras, mas essa simples substituição não levará a esse desenvolvimento.

Voltando à minha filha, que rapidamente aprendeu a pedir fontes confiáveis e especialistas no assunto, a construir ideias baseadas nas perguntas certas e a olhar para diferentes lados de uma mesma história, sim, sou uma mãe orgulhosa e essa percepção também se fortalece na convivência e observação de tantos jovens da escola. Entendi que nossos adolescentes, quando recebem os estímulos certos, querem aprender a usar corretamente as novas tecnologias e navegar em meio a tantas informações sem parecerem “bobos” diante dos assuntos.

Para que construam esse caminho, precisamos apresentar argumentos válidos e, de preferência, sustentados por dados. E nisso as ferramentas digitais podem nos apoiar muito. Ao escrever uma redação, por exemplo, podemos avaliar o quanto determinado tema está relevante no cenário atual do Brasil ou em quantas provas do Exame Nacional do Ensino Médio, periódicos importantes e debates sociais esse assunto apareceu nos últimos anos e porque estão em alta.

Portanto, entendo que a transformação da educação digital não está, de fato, nas ferramentas, mas na relação entre estudantes críticos, éticos e conscientes com o conhecimento e no encontro do que poderá ser feito com ele. Uma relação em que esse conhecimento será potencializado e agilizado pelas tecnologias.

Larrisa Victório
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