Dançar palavras, sentir com o corpo: um novo método brasileiro integra dança, poesia e Libras

Arte, acessibilidade e pedagogia do corpo se encontram em projeto do DF que já gerou espetáculos, livro e videoaulas; saiba como uma artista-pesquisadora transformou a relação entre linguagem e movimento em metodologia inédita


O lançamento do livro “Dançar em Ritmo de Poesia” e do site do método “O Movimento da Palavra” será realizado no dia 22 de maio de 2026, a partir das 19h, no Sebo & Café Amado Jorge (SRES Qd. 02 Conj. X Cs. 56, Cruzeiro Velho). A programação inclui recepção com coquetel e exposição das obras às 19h, bate-papo com artistas e declamações performáticas às 20h, e sessão de autógrafos às 21h. A entrada é gratuita e o evento contará com acessibilidade em Libras e audiodescrição.

“O Movimento da Palavra” é um projeto artístico-pedagógico que propõe uma abordagem inovadora de criação artística ao integrar dança contemporânea, poesia, literatura e Língua Brasileira de Sinais (Libras). Desenvolvido no Distrito Federal, o projeto parte da premissa de que o corpo é um território vivo de criação, escuta e expressão.

Como define a artista e coautora Medusa Victória: “O corpo aqui não é representação, é linguagem. As obras atravessam a ideia de que pensar, sentir e existir não são processos separados. A palavra não surge depois do corpo: ela nasce nele, percorre, tensiona e transborda.”. E observa o também coautor, Valério Ribeiro: "O Movimento da Palavra veio como um suspiro de vida. Fui descobrindo quais eram as poesias escondidas embaixo de todas as camadas que inibiam meu corpo."

A metodologia convida participantes a “dançar palavras”, deslocando a experiência da linguagem do campo exclusivamente racional para uma vivência corporal, sensorial e inclusiva. Nas palavras da idealizadora Thais Kuri: “a palavra estimula o movimento por duas vias: visual e auditiva. Na auditiva, é a palavra falada que com seus sons aguça a sensibilidade do corpo, levando ao movimento. Já pela visualidade, são as formas da palavra escrita que sugerem estados corporais à imaginação.”

O processo é dividido em três módulos progressivos – da escuta à interpretação – que exploram desde a unidade sonora das letras até blocos de texto e composição cênica. Sobre essa experiência, Medusa Victória acrescenta: “Cada gesto, cada torção, cada queda, carrega um estado interno que não se organiza de forma linear. Há um fluxo contínuo entre sensação, pergunta e resposta. Um ciclo que não se fecha, mas se repete, se desloca, se transforma.”

Um dos diferenciais do projeto está na acessibilidade como eixo criativo, e não apenas adaptativo. A interação com a cultura surda transforma a metodologia, incorporando Libras como linguagem poética. Nesse contexto, o som também é percebido como vibração, e a palavra se manifesta por múltiplos canais – visuais, táteis e corporais.

Mais do que uma oficina, “O Movimento da Palavra” se consolida como um ecossistema cultural que articula ensino, pesquisa, extensão universitária (em parceria com a UnDF) e produção artística, com desdobramentos como curta-metragem, videoaulas acessíveis com tradução em Libras e audiodescrição, além de um livro-guia metodológico. "Nossa parceria em O Movimento da Palavra iniciou-se 10 anos atrás e continuamos juntas trabalhando e seguimos com vontade de aprofundar nossas pesquisas no método", rememora Valério Ribeiro.

Qualidade comprovada por montagens cênicas

A consistência e a potência criativa do método são atestadas pelas montagens que dele se originaram. Como afirma Thais Kuri:
“O Movimento da Palavra germinou sementes e abriu trilhas para jovens artistas caminharem com suas explorações criativas.”
Assumindo a liderança de seus próprios processos, os artistas Medusa Victória e Valério Ribeiro – que acompanharam o desenvolvimento do projeto – dirigiram três espetáculos utilizando a metodologia:
  • “Delírios do Tempo” (estreia em dezembro de 2022)
  • “Delírios do Tempo: Machine” (estreia em agosto de 2023)
  • “Santa Profana – Não me dê Flores” (estreia em julho de 2024)
As montagens foram realizadas na Cia Lábios da Lua, no Gama-DF, e demonstram a capacidade do método de formar artistas autônomos. Sobre essa trajetória, Thais completa: “vejo o método como um conjunto de jogos criativos. No final, todo mundo ganha, e ainda é possível utilizar o material gerado para montagem de espetáculos, caso seja de interesse.”

Detalhes da publicação

O livro-guia do método, intitulado “Dançar em Ritmo de Poesia”, é apresentado em linguagem simples e acessível, voltado para o público geral, educadores, artistas, coreógrafos, professores da educação formal e não formal, bem como iniciantes em dança e poesia. Nas palavras da autora Thais Kuri: “Apenas leia, desfrute, entre na jornada, permitindo envolver-se com o movimento das palavras.”

A obra, que teve sua primeira edição lançada em 2023, foi expandida para incluir os capítulos de Valério e de Medusa, bem como os resultados da pesquisa realizada ao longo de 2025 com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, sobre as interfaces do método com a Libras.

A metodologia está estruturada em três módulos principais – Sensassom (exploração das letras), Palavrimagem (visualidade das palavras) e Leitura Louca (blocos de texto) –, com um quarto módulo opcional voltado à composição cênica. O conteúdo inclui sugestões de falas para condução das atividades, roteiros e dicas de preparação corporal.

Sobre a experiência de criar e ilustrar o livro, Medusa Victória descreve seu percurso: “O trabalho parte do corpo como linguagem e ferramenta de expressão – um território sensorial, performático e carregado de memória e discurso. A proposta é explorar a inseparabilidade entre sentir e expressar, onde corpo e pensamento acontecem simultaneamente.”

Os desenhos assumem um papel didático sem perder a potência criativa. Nas palavras da artista: “Visualmente, a intenção é tornar o processo perceptível ao leitor, acompanhando cada etapa como parte de uma construção. O desenho assume também um papel didático, buscando envolver o olhar de forma sensível e acessível.”

O livro também conta com videoaulas complementares disponíveis no site oficial do projeto (omovimentodapalavra.com.br), com tradução em Libras e audiodescrição. A publicação busca ser prática e aplicável, incentivando adaptações livres por parte dos facilitadores. Ao final da obra, há uma compilação de todas as falas em forma de roteiro, facilitando a aplicação em oficinas e ensaios.

Sobre a idealizadora

Thais Kuri é artista-pesquisadora com mais de 15 anos de trajetória nas artes cênicas. Formada em Licenciatura em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília (UnB), sua prática perpassa dança, teatro, poesia performance, artes visuais e técnicas somáticas. Ela mesma revela suas origens criativas com humor e afeto: “Meu sonho, contudo, era ser trapezista, ou contorcionista, e sempre falava pra mamãe que eu ia fugir com o circo.”

Sua formação inclui estudos em Eutonia, teoria Neurocronáxica (preparação vocal para teatro), Tai Chi Chuan e experimentação com Libras. Em 2014, criou o projeto “O Movimento da Palavra”, que desde então vem sendo desenvolvido em parceria com artistas como Medusa Victória e Valério Ribeiro, resultando em espetáculos, oficinas e publicações.

Kuri também atuou em importantes companhias de dança de Brasília, como Antistatusquo, Alaya e Margaridas, e coordenou projetos contemplados pelo Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC). Em 2025, liderou uma nova fase da pesquisa com foco na acessibilidade e na cultura surda, reafirmando seu compromisso com uma arte inclusiva, colaborativa e transformadora. Hoje é professora na Universidade do Distrito Federal, atuando nos cursos de Dança, Produção Cultural e Gestão Pública. Sobre o sentido mais profundo do projeto, ela conclui: “Esta é a potência que vejo no método.”

Serviço:

O lançamento do livro “Dançar em Ritmo de Poesia” e do site do método “O Movimento da Palavra” será realizado no dia 22 de maio de 2026, a partir das 19h, no Sebo & Café Amado Jorge, localizado na SRES Quadra 02 Conjunto X Casa 56, no Cruzeiro Velho, em Brasília-DF.

A programação do evento inclui, a partir das 19h, a recepção dos convidados e a exposição das obras; às 20h, bate-papo com artistas e declamações performáticas; e, às 21h, sessão de autógrafos. A entrada é gratuita e o evento contará com acessibilidade em Libras e audiodescrição.
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