A Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) sediou, na manhã desta terça-feira (7/4), a cerimônia oficial do Kwibuka32, que marca os 32 anos do genocídio de 1994 contra os tutsi em Ruanda. O evento, realizado em parceria com a Embaixada de Ruanda, reuniu parlamentares, diplomatas, acadêmicos, representantes do governo brasileiro e da sociedade civil em um ato de memória, reflexão e reafirmação do compromisso com a prevenção de novas atrocidades.

Em nome do governo e do povo de Ruanda, o embaixador agradeceu à deputada Doutora Jane e aos membros da CLDF pela “graciosa acolhida” e pelo apoio à realização da solenidade. Também participaram o decano do Corpo Diplomático Africano, embaixador de Camarões, Martin Agbor Mbeng; o representante da Secretaria para África e Oriente Médio do Itamaraty, conselheiro Márcio dos Anjos; embaixadores e embaixatrizes, além de servidores de órgãos do governo brasileiro.
Foram destacados ainda como convidados o professor Jean Pierre Karegeye, que viajou especialmente para o evento, e Jeanne Celestine Lakin, sobrevivente do genocídio, cujo depoimento em vídeo foi exibido como testemunho pessoal e instrumento de preservação da memória.
A cerimônia integra o calendário internacional do Kwibuka — palavra em kinyarwanda que significa “lembrar” — e coincide com o Dia Internacional de Reflexão sobre o Genocídio contra os Tutsi em Ruanda, estabelecido pela Organização das Nações Unidas.
Genocídio planejado: décadas de discriminação e desumanização
Em seu discurso, o embaixador ressaltou que o genocídio de 1994 “não foi um surto repentino de violência”, mas o resultado de décadas de divisão, discriminação e desumanização sistematicamente enraizadas na sociedade ruandesa.
Ele lembrou que as bases do genocídio remontam ao período colonial, quando identidades foram formalizadas e politizadas, estabelecendo estruturas de exclusão e desigualdade. A partir de 1959, repetidos ciclos de violência e perseguição forçaram muitos tutsi ao exílio. Nas décadas seguintes, práticas discriminatórias e narrativas de ódio foram institucionalizadas e normalizadas, configurando um sistema comparável a um regime de apartheid.
No início dos anos 1990, esse cenário se transformou em uma estrutura organizada, sustentada por propaganda extremista, milícias e preparação deliberada da violência, culminando no genocídio contra os tutsi. Em cerca de cem dias, mais de um milhão de pessoas foram assassinadas, deixando o país devastado, comunidades destruídas e “a própria humanidade testada em seu núcleo”, nas palavras do representante ruandês.
Reconstrução, reconciliação e “Nunca mais” como política de Estado
O embaixador destacou que as reflexões sobre o passado estão diretamente ligadas ao caminho trilhado por Ruanda desde 1994. Após o fim do genocídio, em julho daquele ano, com a vitória da Frente Patriótica Ruandesa, o país se viu diante de um dilema decisivo: optar pela vingança ou por uma rota diferente.
“Ruan¬deses escolheram a unidade, a reconciliação e a construção nacional”, afirmou. Essa escolha se materializou na criação do Governo de Unidade Nacional, em julho de 1994, com o compromisso de reconstruir o país com base na inclusão e na coesão, rompendo com as divisões que haviam conduzido à tragédia.
Ao longo dos anos, essa orientação foi traduzida em políticas concretas, como a criação, em 1999, da Comissão Nacional de Unidade e Reconciliação, focada em diálogo e coesão social, e a implementação, em 2002, dos tribunais comunitários de Gacaca, que permitiram um modelo de justiça participativa, com responsabilização e envolvimento direto das comunidades.
Segundo o embaixador, a Ruanda de hoje demonstra que a recuperação é possível, mesmo após um trauma dessa magnitude, quando há liderança comprometida, instituições fortes e foco em coesão social. Ele acrescentou, porém, que a vigilância precisa ser permanente, pois os fatores que levam ao genocídio podem reaparecer se não forem enfrentados: “Em Ruanda, ‘Nunca Mais’ não é apenas um slogan, mas um compromisso duradouro”, disse, lembrando declaração do presidente Paul Kagame, durante o Kwibuka21, de que “Ruanda mudou para melhor e para sempre”.
Falhas da comunidade internacional e riscos atuais na região dos Grandes Lagos
Diante de parlamentares e representantes do governo brasileiro, o embaixador afirmou que o Dia Internacional de Reflexão sobre o Genocídio contra os Tutsi não é uma questão apenas de Ruanda, nem um fardo exclusivo de sobreviventes. Segundo ele, a presença de autoridades brasileiras e diplomatas na CLDF demonstra que “lembrança e responsabilidade são partilhadas pela comunidade internacional”.
O diplomata chamou atenção para perguntas que continuam a desafiar governos e instituições: se as lições daquela história foram realmente aprendidas, se a “responsabilidade de proteger” em situações de crimes contra a humanidade está sendo cumprida e se as instituições estão preparadas para agir com rapidez diante de riscos evidentes.
Ele lembrou que, em 1994 e nos anos anteriores, havia sinais claros de alerta, mas a comunidade internacional falhou em agir. “Não se nomeou o crime, não se impediu o genocídio. A história registrará para sempre esse fracasso”, afirmou, destacando que essa omissão deve servir de lição para situações atuais.
O embaixador citou, em particular, a instabilidade no leste da República Democrática do Congo e a atuação de grupos armados, incluindo a FDLR, organização criada por perpetradores do genocídio contra os tutsi, como motivo de preocupação permanente. Ele mencionou a persistência de ideologias extremistas e narrativas de divisão dirigidas contra comunidades tutsi na região, como os Banyamulenge, que seguem alimentando episódios de violência, perseguição e deslocamentos.
Desinformação, negação e o papel do Brasil na prevenção de atrocidades
Outro ponto central do discurso foi o alerta contra a distorção histórica e a negação do genocídio. De acordo com o embaixador, a prevenção exige clareza sobre o significado jurídico de genocídio: a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.
“Esforços de negar ou minimizar o que ocorreu em 1994 ferem a dignidade das vítimas e dos sobreviventes e enfraquecem as bases da prevenção”, afirmou. Na era digital, acrescentou, a disseminação rápida de desinformação e discursos de ódio torna o desafio ainda mais complexo, reforçando a necessidade de educação, memória e responsabilidade no espaço público.
O representante ruandês defendeu investimentos contínuos em educação, diálogo, fortalecimento institucional e cooperação internacional. Ele ressaltou o papel de países como o Brasil, que têm tradição de diálogo e atuação multilateral, no apoio a iniciativas pela paz, pela compreensão mútua e pela prevenção de atrocidades em massa.
O embaixador também agradeceu especialmente a Brasília, São Paulo e Goiânia pela criação, em parques públicos, dos monumentos Chama da Esperança, em memória das vítimas do genocídio contra os tutsi. Segundo ele, esses gestos são “sinais concretos de solidariedade com o povo de Ruanda e de compromisso compartilhado com a lembrança e com o ‘nunca mais’”.
Ao encerrar a cerimônia na CLDF, o diplomata agradeceu a presença de todos, classificando-a como prova de solidariedade com Ruanda e de compromisso comum com a memória e a prevenção de genocídios.
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