Para a mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional Carla Brito Furlan Pourre, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), crescimento de 70% no número de passageiros nos ônibus e metrô do Distrito Federal evidencia demanda reprimida; famílias mais pobres de regiões administrativas têm de 25% a 37% do orçamento comprometidos com custo da tarifa, o que mostra o caráter estrutural do problema

O Vai de Graça, programa de gratuidade no transporte coletivo do Distrito Federal (DF) aplicado aos domingos, feriados e datas festivas, elevou em até 70% o número de passageiros no sistema de ônibus e metrô, segundo dados da Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana. Só no último Carnaval (2026), quando a tarifa zero valeu por quatro dias seguidos, foram quase 2,5 milhões de pessoas transportadas.
O sucesso da iniciativa revela, na verdade, um problema crônico do transporte público no DF: o peso do valor das tarifas no orçamento das famílias, principalmente em regiões administrativas que concentram famílias mais pobres. O alerta é da mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional Carla Brito Furlan Pourre, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB).
Com trajetória acadêmica dedicada ao desenvolvimento de indicadores orientados a resultados para políticas de transporte e mobilidade urbana, Carlla Brito Furlan Pourre fundamenta sua análise em dados obtidos por meio da aplicação empírica do sistema de indicadores desenvolvido em sua dissertação de mestrado na UnB. A metodologia permitiu avaliar o comprometimento da renda familiar com transporte público sob a perspectiva da equidade socioespacial.
Os indicadores desenvolvidos pela pesquisadora permitiram a aplicação empírica de múltiplas métricas relacionadas ao transporte e à mobilidade urbana do Distrito Federal, abrangendo aspectos como acessibilidade, equidade socioespacial, comprometimento da renda familiar, oferta de serviço, cobertura do sistema e desempenho sistêmico, evidenciando desigualdades estruturais até então pouco quantificadas no DF.
“Em regiões administrativas do DF como a do SCIA [Setor Complementar de Indústria e Abastecimento], os resultados da pesquisa mostram que o comprometimento da renda das famílias mais pobres com transporte chega a 37%. Em regiões como Paranoá, Recanto das Emas, Fecal e Varjão, esse peso alcança um quarto (25%) da renda”, afirma.
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| Mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional Carla Brito Furlan Pourre |
Segundo a pesquisadora, esses indicadores demonstram que o modelo de financiamento baseado majoritariamente na tarifa paga pelo usuário acaba restringindo o exercício do direito à cidade. “Quando o custo do deslocamento consome uma parcela significativa da renda familiar, o acesso a saúde, educação, cultura e lazer também se torna limitado. A adesão massiva ao Vai de Graça sinaliza que havia uma população excluída do uso pleno do transporte público por razões puramente econômicas”, ressalta.
O Vai de Graça começou a valer há menos de um ano – mais precisamente, em maio de 2025. O programa de tarifa zero dominical, em feriados e em datas festivas abrange sistemas de ônibus (BRT e linhas convencionais) e de metrô, em todo o Distrito Federal. No último Natal, a gratuidade vigorou de 22 a 28 de dezembro. No Carnaval, de 14 a 17 de fevereiro.
De acordo com a Semob-DF, antes do Vai de Graça o sistema de transporte urbano local transportava cerca de 270 mil pessoas aos domingos. Com a tarifa zero domingueira, esse número saltou para 500 mil, crescimento de 70%. Para a pesquisadora da UnB, esse aumento não representa apenas ampliação ocasional da demanda, mas a materialização de uma demanda reprimida estruturalmente associada ao peso da tarifa no orçamento familiar.
Ainda segundo a pesquisadora Carla Brito Furlan Pourre, a experiência do DF mostra que é preciso, primeiro, buscar meios de aliviar o custo da passagem para o usuário e, também, redefinir o modelo de financiamento do transporte público, hoje no Brasil baseado na tarifa cobrada do passageiro. “Encontrar o valor de tarifa equilibrado que consiga atender aos anseios tanto da população como da governança urbana é um grande desafio discutido por muitos pesquisadores, e mesmo gestores públicos”, constata.
Desafio que tem ganhado novo impulso, com a crescente adesão de municípios à tarifa zero. Atualmente, segundo a Associação Nacional de Transportes Urbanas (NTU), 154 localidades já adotam algum programa nesse sentido – seja universal (ou seja, para toda a população, todos os dias) ou pontual (como o do DF, válido para domingos e feriados). “Políticas tarifárias impactam diretamente a estrutura de oportunidades urbanas. Discutir transporte é discutir inclusão social, desenvolvimento econômico e qualidade de vida. Diante da expansão dos programas de gratuidade e da centralidade do tema na agenda pública, é natural que o debate sobre financiamento e tarifa zero esteja presente na campanha eleitoral deste ano”, conclui a pesquisadora.





