
Uma investigação internacional revelou que a indústria de petróleo e gás possui licenças que se sobrepõem a cerca de 7 mil áreas naturais protegidas em todo o mundo, colocando em risco alguns dos ecossistemas mais importantes do planeta. O levantamento, batizado de Fueling Ecocide, foi conduzido pelo Environmental Investigative Forum (EIF) e pela European Investigative Collaborations (EIC), com a participação de 13 veículos de imprensa.
De acordo com a apuração, 3.164 licenças de exploração e produção de petróleo e gás invadem 7.021 áreas protegidas em 99 países, totalizando 690 mil km² — uma área maior do que a França. Em metade desses casos, as áreas estão totalmente cobertas por concessões à indústria de hidrocarbonetos.
Entre os locais ameaçados estão ecossistemas de relevância global, como a Grande Barreira de Corais, na Austrália; a Reserva da Biosfera Maia, na Guatemala; áreas da Amazônia, da Bacia do Congo e da Indonésia; além de manguezais na África e na Ásia e áreas marinhas protegidas, como o Mar do Norte.
Embora nem todas as áreas já possuam infraestrutura instalada, especialistas alertam que qualquer licença representa risco real ou potencial à biodiversidade, seja por perfurações, poluição, desmatamento ou impactos sonoros e sísmicos no ambiente marinho. Organizações ambientais defendem a proibição imediata da exploração de combustíveis fósseis em áreas protegidas.
A investigação também identificou impactos já em curso. Na Tunísia, vazamentos de petróleo poluem uma zona úmida protegida pelas normas da Convenção de Ramsar. Na República do Congo, parte de uma reserva de chimpanzés vem sendo transformada em área industrial. Já no Iraque, campos de petróleo operados por grandes empresas internacionais contribuem para a degradação de pântanos reconhecidos como Patrimônio Mundial da Unesco.
Segundo os dados, dois terços das áreas afetadas possuem reconhecimento internacional, como sítios da Unesco, áreas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), zonas Ramsar e territórios indígenas. Apesar de recomendações formais dessas entidades para barrar atividades petrolíferas, os compromissos não são juridicamente vinculantes.
O estudo aponta ainda que 763 empresas petrolíferas operam em ao menos uma área protegida. Entre as maiores envolvidas estão gigantes europeias como Shell, TotalEnergies e ENI, algumas das quais mantêm operações até mesmo em áreas reconhecidas pela Unesco.
Especialistas alertam que a expansão da exploração de petróleo em áreas protegidas contradiz diretamente as metas do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que prevê proteger 30% das terras e oceanos até 2030. Cientistas afirmam que a perda acelerada de biodiversidade agrava os efeitos das mudanças climáticas e pode gerar danos ambientais irreversíveis.




